
A Defesa Civil Nacional reconheceu, nesta semana, situação de emergência em treze estados brasileiros, um diagnóstico que expõe o agravamento das adversidades climáticas e estruturais que marcam o território nacional em 2025. O reconhecimento abrange desde a estiagem severa nas regiões Centro-Oeste e Nordeste até os episódios de chuvas volumosas e deslizamentos no Sul e Sudeste. A medida, embora técnica, assume dimensão política e social porque desencadeia a liberação de recursos federais, facilita a contratação emergencial de obras e assistência e redefine prioridades de planejamento urbano e ambiental em diversas cidades.
O Brasil enfrenta neste segundo semestre um cenário de contrastes extremos. Enquanto o semiárido nordestino convive com a pior seca desde 2012, cidades no Vale do Itajaí, na Região Serrana do Rio de Janeiro e no norte do Paraná sofrem com precipitações acima da média histórica. O relatório da Defesa Civil destaca que o fenômeno se deve, em parte, a uma transição climática marcada pelo enfraquecimento do El Niño e pelo início de uma configuração oceânica atípica no Atlântico Sul, que tem redistribuído as massas de ar e alterado o regime de ventos que influencia diretamente o regime de chuvas. A vulnerabilidade socioeconômica de amplas faixas da população e o déficit de infraestrutura de drenagem e abastecimento agravam o impacto desses fenômenos, transformando o que seriam eventos naturais em tragédias recorrentes.
A lista de estados em situação de emergência inclui Pernambuco, Bahia, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Cada um deles enfrenta contextos específicos, mas compartilham um denominador comum: a resposta insuficiente das redes públicas diante da intensificação das mudanças climáticas. No Nordeste, a escassez de chuvas, a evaporação acentuada e o esgotamento de reservatórios provocam prejuízos expressivos à agricultura familiar e ao abastecimento urbano. Municípios do Sertão e do Agreste sofrem com racionamentos diários de água e perda de lavouras. Em certas regiões da Bahia e do Piauí, o colapso parcial de açudes tem comprometido o fornecimento de água para mais de meio milhão de pessoas, forçando migrações temporárias e o reativamento de sistemas de caminhões-pipa que haviam sido reduzidos nos últimos anos.
No centro do país, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul enfrentam uma combinação preocupante de estiagem, queimadas e queda na produção agrícola. O período seco, que deveria ter sido interrompido no início de setembro, prolongou-se, ampliando a área atingida por incêndios florestais e pastagens. A fumaça encobre diariamente cidades como Cuiabá e Campo Grande, reduzindo a visibilidade, saturando hospitais com casos de doenças respiratórias e prejudicando o transporte aéreo. As perdas no setor agrícola já se estimam em bilhões de reais, especialmente para os produtores de soja e milho, impactando o mercado de exportação e consequentemente a arrecadação estadual.
No extremo oposto, o Sul do país atravessa uma sequência incomum de temporais e enchentes. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, o acumulado de chuva em algumas regiões superou o dobro da média histórica para o período. Cidades como Taió, Canoas e Lajeado registraram inundações que destruíram pontes, interditaram rodovias e desalojaram milhares de famílias. O solo encharcado aumenta o risco de deslizamentos, e a recuperação das áreas afetadas ainda depende de avaliações técnicas e recursos que, segundo prefeitos locais, demoram a chegar. Além das perdas materiais, há um trauma coletivo que permanece evidente em comunidades que, em menos de dois anos, enfrentaram repetidos episódios de desastres climáticos.
Já o Sudeste vive um duplo desafio: chuvas torrenciais em áreas de relevo acidentado e estiagem em setores interioranos. Em Minas Gerais e no Espírito Santo, encostas instáveis cederam após sucessivos dias de precipitação, causando desabamentos e deixando dezenas de famílias desabrigadas. Nas periferias de Belo Horizonte e Vitória, ruas viraram rios de lama, expondo a precariedade da ocupação urbana e a fragilidade das políticas habitacionais. Ao mesmo tempo, municípios do norte mineiro registraram seca severa, situação que dificulta o abastecimento e cria um inesperado contraste no próprio território estadual. Essa dualidade é sintoma de um país em que o planejamento hídrico e urbano ainda não acompanha a velocidade das transformações climáticas.
Embora o reconhecimento da emergência agilize o socorro, especialistas alertam para os limites da política reativa. Em muitas localidades, os estados e municípios só conseguem acessar recursos após o agravamento do quadro, o que transforma a gestão preventiva em tarefa secundária. Faltam planos atualizados de contingência, mapeamento de áreas de risco e sistemas de monitoramento capazes de prever com precisão os fenômenos extremos. A dependência da ajuda federal e a dificuldade de coordenação entre os entes federativos evidenciam a carência estrutural de uma política nacional de adaptação climática.
Outra dimensão crítica é a econômica. O reconhecimento da emergência não apenas autoriza a remessa de verbas, mas também reestrutura orçamentos municipais e estaduais. Prefeituras descapitalizadas redirecionam recursos originalmente destinados a infraestrutura e educação para ações imediatas de reconstrução. Com isso, o impacto se prolonga e se retroalimenta: obras de prevenção deixam de ser realizadas, perpetuando o ciclo de vulnerabilidade. No plano macroeconômico, o prejuízo ambiental tem reflexos diretos na produtividade, no abastecimento e no custo dos alimentos, contribuindo para pressões inflacionárias e tensionando políticas públicas.
Estudos recentes indicam que os eventos extremos se tornaram 35% mais frequentes no país desde 2010, e o número de municípios com decretos de emergência quase dobrou entre 2015 e 2025. O fenômeno não se restringe ao Brasil. Mudanças no padrão atmosférico global têm causado escassez de neve na Europa, inundações no sul da Ásia e incêndios devastadores na América do Norte. O que diferencia o contexto brasileiro é a desigualdade territorial: em algumas regiões, a ausência de infraestrutura de drenagem e o desmatamento comprometem diretamente a capacidade do solo de absorver água, transformando chuvas intensas em catástrofes urbanas.
O avanço das áreas de ocupação irregular sobre encostas e margens de rios amplia o impacto humano dos temporais. Quando as chuvas chegam, carregam consigo toneladas de lixo e entulho, obstruindo bueiros e canais, agravando enchentes que poderiam ser mitigadas por sistemas de drenagem eficientes. Essa sobreposição entre urbanização desordenada e falta de planejamento acentua o contraste entre crescimento econômico e sustentabilidade ambiental. Apesar dos inúmeros planos e diagnósticos, as políticas públicas ainda tratam a questão de forma fragmentada e paliativa, o que explica a recorrência das tragédias.
Sob o ponto de vista político, o reconhecimento da emergência mobiliza o Executivo federal e reabre o debate sobre prioridades orçamentárias. O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, ao gerenciar o sistema de proteção civil, atua no repasse e na fiscalização dos recursos, mas enfrenta pressões de governadores e prefeitos em busca de resposta imediata. Nos bastidores, há preocupação com a capacidade de execução dos projetos e com o controle da destinação das verbas em meio à urgência. Municípios com baixa capacidade técnica recorrem a empresas terceirizadas para elaboração de planos de reconstrução, o que pode comprometer a qualidade e a transparência das ações.
Em meio à sucessão de crises, cresce o consenso de que a emergência ambiental deixou de ser um episódio excepcional e tornou-se estado permanente de atenção. A defesa civil brasileira, criada com foco em desastres pontuais, precisa reposicionar-se diante de um cenário em que a frequência e a intensidade dos fenômenos extremos desafiam as categorias tradicionais de gestão. O país reclama de forma crescente uma política de adaptação que vá além do socorro imediato e incorpore elementos de planejamento urbano, educação ambiental, reflorestamento e gestão hídrica integrada.
A resposta institucional, entretanto, esbarra em limitações de financiamento, disputa política e morosidade. Em muitas cidades atingidas, as obras de contenção e drenagem ainda se arrastam desde tragédias passadas, e os planos diretores ignoram o princípio da prevenção climática. Enquanto a emergência é renovada ano após ano, comunidades inteiras reconstruídas precariamente voltam a ser destruídas com a mesma intensidade. O ciclo se repete, moldado pela precariedade e pela resignação, enquanto o país oscila entre a necessidade de agir e o hábito de reagir.
O reconhecimento da situação de emergência em treze estados, portanto, não é apenas um ato administrativo, mas um retrato de um país que vive em tensão permanente entre a natureza e sua própria estrutura de gestão. A cada decreto, evidencia-se não só a força destrutiva dos fenômenos naturais, mas também a fragilidade institucional diante da magnitude dos desafios climáticos. Em um território de dimensões continentais, as catástrofes deixam de ser eventos isolados e passam a compor uma paisagem de crise crônica, que exige não apenas recursos, mas sobretudo visão de futuro.
Num mundo em transição climática acelerada, o Brasil posiciona-se como um espelho das contradições globais: potência ambiental vulnerável, detentor de vastos recursos naturais, mas marcado por desigualdades estruturais que potencializam os danos. A situação de emergência em treze estados é sintoma de um problema mais profundo e persistente. Representa o chamado urgente à reconstrução de uma cultura de prevenção, solidariedade e planejamento, para que o país possa enfrentar, com resiliência e inteligência, a era da emergência climática.

