

A revolução da inteligência artificial, celebrada como motor da próxima grande transformação econômica, está produzindo um efeito colateral que já se faz sentir em vários setores: uma corrida global por chips de alto desempenho que empurra a cadeia de semicondutores aos limites da capacidade e inaugura um novo ciclo de escassez tecnológica. A disputa por componentes capazes de treinar e operar modelos cada vez mais complexos transformou unidades de processamento gráfico e memórias avançadas em bens estratégicos, disputados por gigantes da nuvem, startups bilionárias e governos que enxergam na infraestrutura de IA um ativo de soberania.
Se, no início da década, a escassez de semicondutores esteve associada a gargalos logísticos e aos efeitos da pandemia sobre a indústria automobilística, a crise atual tem uma natureza distinta: não se trata de falta de chips genéricos, mas de uma pressão inédita sobre componentes específicos que sustentam a explosão da IA generativa. O coração dessa disputa são as GPUs e aceleradores dedicados, como os chips da Nvidia, AMD e Google, e, sobretudo, as memórias de alta largura de banda que alimentam esses processadores com dados em velocidade suficiente para treinar modelos com bilhões de parâmetros.
Relatórios recentes apontam que, em 2026, data centers tradicionais e infraestruturas voltadas a IA devem consumir mais de 70% de todos os chips de memória de ponta produzidos no mundo, comprimindo a oferta para outros segmentos que dependem do mesmo tipo de componente. Ao contrário do software, que pode escalar com downloads, a produção de semicondutores obedece a uma física industrial rigorosa, dependente de fábricas de altíssimo custo, longos ciclos de investimento e cadeias de suprimento globalizadas.
A memória tornou-se, de fato, o gargalo estrutural da nova corrida tecnológica. Fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron operam próximas ao limite de capacidade na produção de high bandwidth memory (HBM), tecnologia central para o desempenho de aceleradores de IA, e reportam prazos de entrega que podem chegar a seis ou até doze meses em alguns contratos. Na prática, isso significa que datacenters recém-anunciados e clusters de computação planejados por empresas e instituições de pesquisa são obrigados a redesenhar cronogramas, adiar lançamentos de produtos e rever ambições de escala.
Do lado da demanda, a pressão é alimentada por um punhado de atores com apetite praticamente ilimitado. Grandes provedores de nuvem como Google, Amazon, Microsoft e Meta passaram a emitir pedidos abertos, comprometendo-se a absorver toda a memória que as fabricantes forem capazes de entregar, numa espécie de fila permanente de suprimentos reservados. No outro extremo do planeta, gigantes chineses como Alibaba, Tencent e ByteDance também disputam prioridades, pressionados por restrições de exportação impostas pelos Estados Unidos a chips avançados e buscando assegurar qualquer fatia possível do estoque global.
Esse cenário é agravado pelo que analistas descrevem como “geopolítica da infraestrutura”, na qual regras de controle de exportação, sanções e tensões diplomáticas se tornam tão determinantes para o acesso a chips quanto o poder de compra das empresas. Restrições norte-americanas ao envio de aceleradores de última geração para a China, por exemplo, redirecionaram fluxos de produção e incentivaram movimentos de contrabando e triangulação, enquanto fabricantes e governos tentam redesenhar cadeias produtivas para reduzir dependências críticas.
Na outra ponta, as foundries responsáveis pela fabricação física dos chips correm para ampliar capacidade, mas reconhecem que o descompasso entre demanda e oferta não será resolvido da noite para o dia. A TSMC, maior fabricante de semicondutores por contrato do mundo, projeta investimentos entre 52 e 56 bilhões de dólares em 2026, no maior esforço de expansão de sua história, impulsionado diretamente pela procura por chips de IA e computação de alto desempenho. Mesmo assim, a própria empresa admite que a capacidade seguirá “apertada” nos próximos anos, com ciclos de negociação que se estendem por dois a três anos e exigem planejamento conjunto de longo prazo com clientes estratégicos.
Para além dos grandes números, a escassez de chips se materializa em decisões concretas de negócios. Em 2025, relatos de mercado indicaram que a falta de aceleradores e memórias adequadas provocou atrasos de 40% a 60% em projetos de IA corporativos, obrigando empresas a postergar implantações ou recorrer a arquiteturas menos ambiciosas do que as originalmente planejadas. O custo de aluguel de GPUs de ponta em nuvem, embora tenha começado a ceder com a entrada de novos provedores e o aumento de oferta, ainda reflete esse período de escassez, com preços que tornam inviável o uso intensivo para muitos atores menores.
Esse desequilíbrio tem implicações macroeconômicas não triviais. A expectativa de que a IA impulsionaria ganhos de produtividade rápidos e difusos esbarra na realidade de uma infraestrutura cara, concentrada e, em muitos casos, inacessível para quem não integra o topo da pirâmide digital. Analistas alertam que a combinação de componentes encarecidos, investimentos bilionários e capacidade limitada pode adiar a materialização dos benefícios econômicos prometidos, ao mesmo tempo em que adiciona pressão inflacionária em setores sensíveis à tecnologia.
Diante desse quadro, governos e empresas começam a repensar estratégias. Alguns países anunciam planos de incentivo à produção local de chips e memórias, tentando reduzir a dependência de poucos polos asiáticos e construir um mínimo de autonomia em infraestrutura de IA. Já corporações que apostam pesado em inteligência artificial são levadas a incorporar variáveis geopolíticas e de suprimento em suas arquiteturas, combinando nuvens distintas, clusters próprios e modelos híbridos para mitigar riscos de futuras interrupções.
A corrida da IA, ao transformar chips em artefatos de poder econômico e político, expõe uma contradição central da era digital: o futuro aparentemente ilimitado da computação depende, de forma muito concreta, de fábricas, wafers, químicos e linhas de produção altamente concentradas. Enquanto modelos de linguagem e sistemas generativos multiplicam promessas de abundância, a escassez física de semicondutores lembra que, por trás da nuvem, ainda há silício finito, prazos de entrega e uma competição feroz por cada centímetro de silício gravado.
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