

O Banco Central do Brasil tomou uma decisão drástica nesta quarta-feira, 21 de janeiro de 2026. A autarquia decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito Financiamento e Investimento, instituição financeira controlada pelo Banco Master e operadora do banco digital Will Bank, popular entre consumidores de baixa renda, especialmente no Nordeste. A medida põe fim a um processo iniciado com a intervenção no conglomerado Master, liquidado em novembro de 2025, e reflete o esgotamento de todas as tentativas de preservação da entidade sob regime especial de administração temporária.
Em comunicado oficial, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, justificou a ação pelo comprometimento irreversível da situação econômico-financeira da Will Financeira, pela constatação de insolvência e pelo vínculo estreito com o Banco Master, cuja liquidação já se arrastava há dois meses. O estopim imediato veio no dia 19, quando a instituição descumpriu obrigações de pagamento no arranjo da Mastercard Brasil Soluções de Pagamentos, resultando no bloqueio de sua participação nesse ecossistema e na suspensão do uso de cartões pelos clientes. Essa falha operacional caracterizou, para o regulador, um quadro de insolvência factual que inviabilizava qualquer solução alternativa.
A Will Financeira operava sob Regime Especial de Administração Temporária desde a queda do Banco Master, na esperança de encontrar um investidor que preservasse suas operações. O Banco Central havia optado por essa modalidade intermediária para evitar prejuízos maiores ao sistema financeiro, que representava apenas 0,57 por cento do ativo total e 0,55 por cento das captações do setor. Contudo, negociações para venda não prosperaram, e o acúmulo de dívidas e obrigações não honradas tornou a continuidade impossível. A liquidação extrajudicial, distinta da falência judicial por sua rapidez e exclusividade da autoridade monetária, agora transfere a gestão a um liquidante nomeado pelo BC, com plenos poderes para realizar ativos e quitar credores.
Entre as consequências imediatas, destacam-se a indisponibilidade dos bens dos controladores e ex-administradores da instituição, medida destinada a preservar patrimônio para ressarcimentos e investigações em curso pela Polícia Federal, que apura fraudes no conglomerado Master liderado por Daniel Vorcaro. Clientes com contas correntes, cartões de crédito ou investimentos em CDBs enfrentam agora um período de transição delicado. O Fundo Garantidor de Créditos entrará em cena para cobrir até 250 mil reais por CPF ou CNPJ, com prioridade a saldos em conta e aplicações de renda fixa, mas o processo pode demandar semanas ou meses para conclusão.
Para os usuários do Will Bank, o impacto é particularmente sensível. O banco digital, voltado a públicos vulneráveis com serviços acessíveis como contas gratuitas e microcrédito, perde relevância num momento em que a inclusão financeira ganha tração no país. Clientes são orientados a transferir saldos para outras instituições via Pix ou TED, enquanto o FGC gerencia a indenização de investimentos. Especialistas alertam para o risco de desassistência temporária a populações de baixa renda, que dependiam da simplicidade da plataforma.
O episódio reforça a vigilância do Banco Central sobre o open banking e fintechs, setores que cresceram exponencialmente mas expõem fragilidades regulatórias. A liquidação da Will Financeira, terceira no conglomerado Master, sinaliza que o regulador não hesitará em atuar com rigor diante de descalabros gerenciais ou ligações espúrias, mesmo que isso implique custos bilionários ao FGC. Analistas veem na medida um freio a práticas temerárias em instituições de menor porte, mas questionam se o arcabouço atual basta para prevenir contágios em um sistema cada vez mais pulverizado.
Em nota, o BC enfatizou que a intervenção preservou a estabilidade do Sistema Financeiro Nacional, com impacto sistêmico mínimo dado o porte reduzido da Will. Ainda assim, o caso expõe lições amargas sobre governança em fintechs e a necessidade de due diligence mais apurada por investidores e reguladores. Para os afetados, resta aguardar o desenrolar do processo de liquidação, que priorizará credores quirografários e depósitos. Num mercado financeiro em expansão, a queda da Will Financeira serve de lembrete salutar de que a inovação tecnológica não isenta ninguém das regras basilares de solidez e transparência.
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

