

Às vésperas do anúncio oficial dos indicados ao Oscar de 2026, o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho transformou as redes sociais em uma espécie de sala de estar ampliada para agradecer, com rara sobriedade, a onda de apoio que se formou em torno de O Agente Secreto, longa que representa o Brasil na disputa por uma vaga em Melhor Filme Internacional. Em vídeos e textos publicados na noite de ontem, o cineasta evocou a trajetória do filme desde a première em Cannes até a temporada de prêmios nos Estados Unidos, ressaltando que o eventual reconhecimento da Academia seria, antes de tudo, uma consagração coletiva de uma equipe que atravessou sete anos de desenvolvimento, filmagens complexas e um circuito intenso de festivais.
O Agente Secreto, um thriller político neo-noir ambientado no Brasil de 1977, acompanha Marcelo, professor de tecnologia interpretado por Wagner Moura, que deixa São Paulo rumo ao Recife numa tentativa de se desvincular de um passado violento, para em seguida descobrir que está sendo monitorado por aparatos de inteligência do regime militar. A narrativa, que entrelaça paranoia política, memória coletiva e drama íntimo, estreou mundialmente em maio de 2025 na competição oficial do Festival de Cannes, de onde saiu laureada com o prêmio de Melhor Diretor para Kleber Mendonça Filho e Melhor Ator para Moura, tornando-se desde então presença recorrente em debates críticos sobre o cinema político contemporâneo.
Ao agradecer o apoio, Kleber recuperou esse arco, sublinhando que a candidatura ao Oscar não nasceu de uma campanha fabricada nos últimos meses, mas de um percurso que começou nas salas de festival e foi se ampliando com a recepção calorosa da crítica internacional, de veículos especializados à imprensa generalista. O cineasta destacou a confiança depositada pela Academia Brasileira de Cinema, que em setembro de 2025 escolheu O Agente Secreto como representante oficial do país na corrida pela estatueta, decisão tomada após um processo descrito por parte da imprensa estrangeira como “debate nacional” dada a força de outros concorrentes na lista curta.
Na mensagem, Kleber reservou espaço especial para o público brasileiro, que começou a ver o filme a partir de novembro, quando a produção entrou em cartaz comercialmente nos cinemas do país. Ele ressaltou o contraste entre o caráter árido do tema, ditadura, vigilância, trauma histórico, e a adesão emocional de plateias jovens, muitas delas distantes cronologicamente dos anos retratados na tela, mas profundamente conectadas à sensação contemporânea de incerteza política. Segundo o diretor, essa resposta doméstica é o verdadeiro termômetro de vitalidade de O Agente Secreto, mais do que qualquer tapete vermelho ou troféu dourado.
Nos bastidores, a campanha de O Agente Secreto para o Oscar se estruturou com ambição incomum para um filme brasileiro. Distribuído nos Estados Unidos por uma empresa especializada em lançamentos de cinema de autor, o longa realizou sessões especiais em Nova York, Los Angeles e festivais de prestígio, além de promover encontros com membros da Academia e críticas em veículos influentes como Variety e The Hollywood Reporter. A agenda de Kleber e de Wagner Moura incluiu painéis, entrevistas e masterclasses, configurando o que a imprensa especializada descreveu como “uma das campanhas mais organizadas já feitas pelo Brasil na categoria”.
Os resultados dessa estratégia começaram a aparecer ainda em 2025 e se intensificaram nas primeiras semanas de 2026. O filme entrou em listas de melhores do ano de críticos europeus e norte-americanos, foi presença em premiações da crítica e, mais recentemente, conquistou troféus em cerimônias como o Critics Choice Awards e ganhou fôlego adicional com indicações em categorias de direção e roteiro em premiações pré-Oscar. O conjunto de reconhecimentos alimentou a percepção de que O Agente Secreto pode ir além da tradicional vaga de Melhor Filme Internacional, aventando a hipótese, ainda que remota, de indicações em categorias como roteiro original e atuação para Wagner Moura.i
Nesse contexto, o agradecimento público do diretor ganha contornos de gesto político e afetivo. Ao invés de apostar em um discurso autocongratulatório, Kleber optou por um tom de gratidão cautelosa, enfatizando que a “corrida” pela estatueta já teria valido a pena pelo diálogo estabelecido com espectadores de diferentes países, pela circulação da história de um Brasil sob ditadura nos grandes centros de decisão do cinema mundial e pelo orgulho simbólico de ver um filme pernambucano ocupar espaço no radar da Academia.
Críticos brasileiros observam que a postura do cineasta também dialoga com a tradição de engajamento de sua obra, marcada por leituras agudas sobre urbanismo, desigualdade e memória – como em O Som ao Redor e Aquarius – agora transpostas para um terreno ainda mais explicitamente político em O Agente Secreto. Ao agradecer “o apoio popular, crítico e institucional”, Kleber sugere que o filme opera simultaneamente como obra de arte e instrumento de reflexão histórica, numa chave que ultrapassa o mero jogo de previsões de prêmios.
Nas próximas horas, quando a Academia de Hollywood divulgar a lista de indicados ao Oscar de 2026, saber-se-á se O Agente Secreto converterá o entusiasmo em nomeações concretas. Independentemente do desfecho, porém, o gesto de Kleber Mendonça Filho antecipa o que talvez seja o maior saldo dessa temporada: a consolidação de um cinema brasileiro capaz de disputar espaço estético e político no circuito internacional sem abrir mão de suas marcas autorais e de sua memória histórica. Se a estatueta cruzará ou não o Atlântico, permanece em aberto; o que já se anuncia, no entanto, é que a trajetória de O Agente Secreto dificilmente será esquecida quando se escrever a história da presença brasileira no Oscar.
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