

As chuvas fortes que voltaram a atingir a capital e municípios da Grande São Paulo nos últimos dias reacenderam um problema que, para muitos moradores, já virou parte da rotina do verão: a interrupção do fornecimento de energia, com impactos diretos na mobilidade urbana, no funcionamento do comércio e na segurança dentro de casa. Na segunda-feira (19), um temporal derrubou árvores, danificou a rede elétrica e deixou uma extensa mancha de imóveis sem luz, situação que avançou pela noite e exigiu atuação contínua de equipes em campo.
De acordo com informações divulgadas pela Enel, a chuva que atingiu a capital e a região metropolitana na segunda-feira (19) deixou 132.085 imóveis sem energia até as 20h19, número que ainda era de 119.742 às 22h49. O mesmo boletim registrou que semáforos ficaram apagados na Avenida Santo Amaro, no cruzamento com a Rua Roque Petroni, ao menos até 20h, cenário que ajuda a explicar os relatos de lentidão e risco elevado em vias de grande fluxo durante o pico do temporal.
O vento, frequentemente tratado como coadjuvante, foi desta vez um protagonista explícito do apagão. Segundo registros do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) citados na cobertura do episódio, houve rajadas de 50,2 km/h em M’boi Mirim, na região da Barragem Guarapiranga, além de medições acima de 40 km/h em áreas como Santana e Parelheiros. Em linguagem direta, esse tipo de intensidade costuma ser suficiente para transformar galhos em projéteis, desequilibrar árvores já comprometidas e, no contato com a fiação aérea, provocar desde curtos-circuitos até a queda de postes.
Os efeitos se espalharam para além do desconforto doméstico. Elevadores parados, portões eletrônicos inoperantes e estabelecimentos sem condições de atender plenamente compuseram um retrato conhecido de bairros que, em dias de instabilidade, passam a depender de geradores, lanternas e da paciência dos moradores. Em algumas ruas, a noite chega antes do horário, e não apenas por causa das nuvens carregadas: chega porque a infraestrutura se apaga.
As ocorrências registradas pelos serviços de emergência ajudam a dimensionar a força do evento. O Corpo de Bombeiros recebeu 31 chamados para quedas de árvores e 15 para desabamentos entre 14h e 18h, considerando capital e região metropolitana, sem registro de feridos. Na mesma data, a Defesa Civil atendeu 15 ocorrências de queda de árvore, distribuídas entre zonas da cidade e a região centro-oeste, segundo a Secretaria Municipal de Segurança Urbana. São números que, somados, ajudam a entender por que um apagão raramente é um único problema: ele nasce de um conjunto de falhas, simultâneas e, muitas vezes, encadeadas.
O contexto meteorológico também pesa. O próprio CGE apontou que janeiro já acumulou mais de 70% da chuva esperada para o mês na capital, o que reforça o caráter persistente da instabilidade e a tendência de saturação do solo, com maior risco de queda de árvores e transtornos associados. Para os próximos dias daquele episódio específico, a previsão divulgada indicava afastamento de frente fria do litoral, mas com ventos úmidos do oceano mantendo nebulosidade e chuviscos, além de temperaturas mais baixas, com mínimas de 16°C e máximas ao redor de 21°C na terça-feira (20).
Em meio à cobrança por respostas rápidas, volta ao centro do debate o que pode ser feito para reduzir a vulnerabilidade da rede em uma metrópole marcada por fiação aérea extensa e arborização urbana desigual. Especialistas ouvidos pelo Reset destacam medidas como mapeamento de áreas críticas, poda preventiva e investimentos em equipamentos e digitalização da rede, numa tentativa de trocar o modelo reativo por ações de antecipação. A mesma reportagem registra que a Prefeitura de São Paulo prevê investimento de R$ 18,8 milhões para um inventário de 650 mil árvores, com o objetivo de identificar riscos e planejar podas.
Para o cidadão comum, porém, a urgência é imediata e tem nome simples: segurança. A própria Enel orienta que ninguém deve tocar em fios caídos na rua e que, ao encontrar um cabo no chão, o correto é acionar a distribuidora para remoção e atendimento. Em cenários de tempestade, também é recomendado desconectar aparelhos eletrônicos das tomadas e evitar o uso de equipamentos elétricos quando há instabilidade, reduzindo riscos de danos e acidentes.
A cada novo temporal, São Paulo revive a tensão de depender de um sistema sensível a ventos e quedas de árvores, ao mesmo tempo em que discute, com atraso histórico, o custo e a complexidade de tornar sua infraestrutura mais resiliente. No fim, quando a luz se apaga, o impacto não é abstrato: ele atravessa a geladeira que para, o trabalho interrompido, o semáforo que falha e a sensação de que a cidade, por alguns instantes, fica grande demais para caber no escuro.
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