

O cinema brasileiro amanheceu em estado de júbilo nesta terça‑feira com o anúncio das indicações ao Bafta 2026, o prestigiado prêmio da Academia Britânica de Cinema e Televisão. O Agente Secreto, novo longa de Kleber Mendonça Filho, conquistou duas nomeações: Melhor Filme em Língua Não‑Inglesa e Melhor Roteiro Original, consolidando a produção como um dos fenômenos internacionais da temporada.
A confirmação veio em transmissão ao vivo realizada em Londres, na qual a organização do Bafta revelou a lista de indicados em todas as categorias. Entre produções de peso da Europa e da Ásia, o título brasileiro firmou presença em dois dos segmentos mais cobiçados, repetindo o feito recente de premiações como o Globo de Ouro e os Critics’ Choice Awards, onde já havia sido amplamente celebrado. Para a crítica especializada, o duplo reconhecimento em território britânico indica que o filme ultrapassou a condição de “azarão estrangeiro” e passou a integrar o núcleo duro das obras que moldam o debate cinematográfico de 2025/2026.
Na categoria Melhor Filme em Língua Não‑Inglesa, O Agente Secreto concorre ao lado de produções como a norueguesa Sentimental Value, a francesa Foi Apenas um Acidente e o drama tunisiano The Voice of Hind Rajab, todas elas já presentes no circuito de festivais em Cannes, Veneza e Berlim. A presença brasileira nessa disputa não chega a ser surpresa: a narrativa sobre um professor que, em 1977, deixa São Paulo rumo ao Recife e se vê enredado numa trama de vigilância e paranoia política conquistou júris e plateias desde sua estreia em Cannes, quando foi aplaudida por mais de dez minutos e rendeu a Kleber Mendonça o prêmio de direção e a Wagner Moura o troféu de melhor ator.
Talvez mais simbólica, porém, seja a indicação a Melhor Roteiro Original. Em um prêmio historicamente dominado por produções anglófonas, a presença de um texto escrito em português, ambientado na ditadura militar brasileira e estruturado em chave de thriller político, evidencia o grau de interlocução que o filme alcançou com a comunidade internacional de roteiristas e votantes. Segundo a sinopse oficial, o longa acompanha Marcelo, professor de tecnologia que tenta recomeçar a vida no Recife apenas para descobrir que a cidade, longe de refúgio, torna‑se campo minado onde passado e presente se confundem sob a sombra de aparatos de inteligência do regime.
Críticos britânicos vinham apontando há semanas a força do roteiro de O Agente Secreto, em especial pela maneira como Kleber combina suspense, comentário político e observação minuciosa do cotidiano, sem recorrer à didática explícita. O jornal The Hollywood Reporter descreveu o filme como “o melhor título de 2025” e destacou a capacidade do diretor de transformar um episódio localizado da história brasileira em narrativa de alcance universal sobre vigilância, medo e resistência. Nas bolsas de apostas do circuito internacional, o texto de Mendonça Filho passou a figurar ao lado de roteiros de grandes estúdios norte‑americanos, algo pouco comum para obras de língua não inglesa.
O elenco liderado por Wagner Moura também ganha tração com as indicações. Embora o Bafta deste ano não tenha incluído o ator entre os finalistas, veículos especializados sublinham que sua performance foi determinante para o êxito do filme nas principais categorias. Moura encarna Marcelo com uma combinação de fragilidade e obstinação que vem sendo apontada como uma das grandes atuações da temporada, inclusive por associações de críticos em Los Angeles e Nova York, que já lhe concederam prêmios e menções honrosas. Ao redor dele, nomes como Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Thomás Aquino e Udo Kier completam um elenco que circulou com desenvoltura pelos tapetes vermelhos de Cannes a Beverly Hills.
As indicações ao Bafta chegam em um momento em que O Agente Secreto vive seu auge nas campanhas internacionais. O filme já venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não‑Inglesa e acumula indicações ao Oscar em categorias como Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Casting, igualando o recorde histórico de Cidade de Deus em número de nomeações para uma produção brasileira. Nesse contexto, o Bafta desempenha papel de termômetro: historicamente, obras laureadas ou, ao menos, amplamente indicadas pela academia britânica chegam fortalecidas à noite do Oscar.
Para o cinema brasileiro, o feito tem dimensão que extrapola o circuito de premiações. Depois de um período de restrição orçamentária e incertezas políticas, a sucessão de reconhecimentos internacionais a produções nacionais, da vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar anterior às atuais conquistas de O Agente Secreto, vem sendo interpretada como sinal de renovação e potência criativa. Produtores e distribuidores estrangeiros enxergam, nesse ciclo, um campo fértil para novas coproduções e parcerias, enquanto cineastas brasileiros veem abertas, ainda que parcialmente, as portas de um mercado historicamente concentrado em filmes de língua inglesa.
Kleber Mendonça Filho reagiu às indicações com sobriedade e entusiasmo. Em declarações recentes, o diretor lembrou que sua trajetória começou como crítico de cinema e programador, e que ver um filme pernambucano disputar espaço no Bafta, ao lado de grandes produções globais, representa “um gesto de confiança no olhar autoral e na memória histórica do Brasil”. Para ele, mais do que coroar uma carreira individual, o reconhecimento britânico ajuda a sedimentar a ideia de que o cinema brasileiro pode falar ao mundo sem abrir mão de suas marcas estéticas e de sua complexa experiência política.
Se as estatuetas virão ou não, apenas a cerimônia em Londres dirá. Por ora, os números e o simbolismo falam por si: O Agente Secreto, aplaudido em Cannes, vencedor no Globo de Ouro e forte candidato no Oscar, acaba de inscrever o Brasil mais uma vez no mapa do Bafta, num momento raro em que críticas, público e indústria parecem convergir em torno de um mesmo título.
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