

A reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, em 2026, consolidou de vez a inteligência artificial como eixo central das preocupações econômicas, políticas e sociais da elite global. Ao longo de painéis, encontros bilaterais e conversas de corredor, a tecnologia deixou de ser tratada como promessa distante e passou a ocupar o lugar de variável determinante para o futuro do trabalho, da competitividade e da própria governança internacional.
Da euforia ao confronto de visões
O clima em Davos foi marcado por um contraste nítido entre entusiasmo tecnológico e apreensão com os impactos sociais da IA. De um lado, alguns dos principais nomes da indústria, como Demis Hassabis, Dario Amodei e pesquisadores ligados às maiores empresas de tecnologia, defenderam que modelos avançados estão se aproximando da chamada inteligência em nível humano, afirmando que, em poucos anos, sistemas serão capazes de executar pesquisas em patamar equivalente a prêmios Nobel e substituir uma parcela significativa das tarefas de colarinho branco. De outro, acadêmicos, reguladores e representantes da sociedade civil alertaram para os riscos de concentração de poder, ampliação de desigualdades e erosão de empregos formais caso a transição não seja cuidadosamente administrada.
Em sessões lotadas, executivos chegaram a projetar que até metade dos empregos de escritório pode ser profundamente transformada ou automatizada em um horizonte de poucos anos, reconfigurando desde o setor financeiro até serviços profissionais altamente especializados. Ao mesmo tempo, a mensagem recorrente era a de que a IA pode elevar produtividade, acelerar descobertas científicas e criar novos mercados, desde que acompanhada por políticas de qualificação, proteção social e regulação mínima que evitem abusos.
Empregos, qualificação e o medo do vazio
Nenhum tema mobilizou tanto quanto o impacto da IA sobre o trabalho. Dirigentes de organismos internacionais apontaram que cerca de 40 por cento dos empregos no mundo, e até 60 por cento nas economias avançadas, devem ser transformados ou eliminados pela adoção acelerada de sistemas inteligentes, exigindo requalificação em escala sem precedentes. Em diálogos com CEOs de grandes bancos e conglomerados financeiros, como Larry Fink e Jamie Dimon, a questão não foi se haverá perda de postos de trabalho, mas como mitigar o impacto social e redistribuir ganhos de produtividade para evitar uma nova onda de tensões políticas e populismo.
Especialistas insistiram que “skilling” e “reskilling” não podem mais ser tratados como programas periféricos de recursos humanos, mas como infraestrutura crítica para o crescimento econômico e a coesão social na era da IA. Relatórios apresentados em Davos mostraram que as empresas que já incorporam a tecnologia de forma estruturada registram ganhos de eficiência mensuráveis em dezenas de países e setores, ao mesmo tempo em que enfrentam o desafio de adaptar sua força de trabalho a funções mais analíticas, criativas e orientadas a decisão.
Governança global em construção
À sombra desse entusiasmo pragmático, avançou outro eixo central de debates: a governança da inteligência artificial. Painéis dedicados ao tema discutiram modelos de regulação baseados em risco, inspirados em iniciativas como a legislação europeia de IA, e a necessidade de evitar tanto o excesso de normas que travem a inovação quanto o vácuo regulatório que permita danos em larga escala. Representantes de governos, empresas e organismos multilaterais convergiram na ideia de que é preciso construir um arcabouço flexível, capaz de acompanhar a velocidade da tecnologia, mas suficientemente robusto para lidar com vieses algorítmicos, desinformação automatizada, uso militar e concentração de poder em poucos atores.
Um dos relatórios apresentados pelo próprio Fórum Econômico Mundial propôs uma abordagem de 360 graus para a governança da IA generativa, articulando normas existentes, mecanismos de supervisão, participação de múltiplos stakeholders e cooperação internacional para harmonizar padrões. O consenso possível em Davos não foi sobre um modelo único, mas sobre a urgência de ação coordenada, sob pena de se aprofundar um cenário em que poucos países e empresas definem, na prática, os limites do aceitável.
Entre hype, resultados e disputa geopolítica
Se em anos anteriores predominavam narrativas de hype e promessas abstratas, a edição de 2026 marcou um deslocamento para a cobrança por resultados concretos. Investidores e executivos passaram a questionar menos “o que a IA pode fazer” e mais “onde ela já entrega retorno sobre o investimento”, pressionando por casos de uso claros em manufatura, saúde, serviços financeiros e setor público. Ao mesmo tempo, a tecnologia se consolidou como instrumento de disputa geopolítica, com discussões explícitas sobre o risco de fragmentação entre blocos regulatórios e de supremacia tecnológica entre grandes potências.
A presença de figuras de alto impacto midiático, como Elon Musk, que projetou um futuro com mais robôs do que pessoas e máquinas superando a inteligência humana coletiva em poucos anos, adicionou uma camada de dramatização às conversas que já eram intensas. Atrás desse espetáculo retórico, porém, Davos expôs algo mais profundo: a percepção de que a inteligência artificial deixou de ser pauta setorial de tecnologia e passou a atravessar todas as agendas centrais do Fórum, da competitividade industrial à estabilidade democrática. Se a edição de 2026 é um indicativo do que vem pela frente, a discussão sobre IA não deve arrefecer tão cedo; tende, ao contrário, a tornar-se o pano de fundo permanente de qualquer debate sobre o futuro da economia global.
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