

Um novo surto do vírus Nipah no estado de Bengala Ocidental, na Índia, elevou o nível de alerta das autoridades sanitárias indianas e de países vizinhos, com confirmação de pelo menos cinco casos, incluindo profissionais de saúde infectados em um hospital particular. O episódio reacende temores sobre um patógeno classificado pela Organização Mundial da Saúde como prioritário, devido à sua letalidade elevada e ao potencial de transmissão zoonótica, em um contexto de vigilância aeroportuária intensificada na Ásia.
O epicentro em Bengala Ocidental
Os casos surgiram no hospital particular de Barasat, nos arredores de Calcutá, capital do estado. Dois enfermeiros, um homem e uma mulher, foram os primeiros a testar positivo após contato com pacientes possivelmente infectados, levando à quarentena de cerca de cem pessoas vinculadas ao local. Entre os infectados subsequentes, figuram um médico, uma enfermeira e um auxiliar de saúde, todos transferidos para unidades especializadas em doenças infecciosas, como o hospital de Beleghata, em Calcutá, onde uma das pacientes permanece em estado crítico na unidade de terapia intensiva.
Autoridades do Departamento de Saúde de Bengala Ocidental afirmam que a situação está sob controle, com monitoramento ativo de contatos e testes negativos em todos os rastreáveis até o momento, mas o risco de disseminação persiste em uma região densamente povoada e historicamente endêmica para o vírus. Bengala Ocidental registra surtos desde 2001, ao lado de Kerala, outro foco recorrente na Índia, o que reforça a necessidade de respostas rápidas para conter cadeias de transmissão.
Características do vírus Nipah
Identificado pela primeira vez em 1998 na Malásia, durante uma epidemia que dizimou suínos e infectou centenas de humanos, o Nipah é um paramixovírus transmitido principalmente por morcegos frugívoros da espécie Pteropus, reservatórios naturais do patógeno. A infecção humana ocorre via contato com saliva, urina ou fezes desses animais, ou por ingestão de frutas contaminadas, suco de palmeira cru e, em menor escala, por transmissão interpessoal em ambientes hospitalares superlotados.
Os sintomas iniciais mimetizam uma gripe comum: febre, dor de cabeça e mialgias, evoluindo para encefalite aguda, convulsões e insuficiência respiratória grave em até 75 por cento dos casos fatais. Desde sua descoberta, o vírus provocou doze surtos documentados no século XXI, com 477 infecções confirmadas e 338 óbitos, configurando letalidade média de 70 por cento, sem vacina disponível até o momento e tratamento restrito a suporte intensivo e anticorpos monoclonais em suprimento global limitado.
Medidas de contenção e alerta regional
O governo indiano, em coordenação com o Centro Nacional de Controle de Doenças, ativou protocolos de emergência, incluindo rastreamento de 196 contatos iniciais, todos assintomáticos e negativos em testes preliminares. Hospitais em Calcutá foram adaptados para isolamento, e campanhas educativas enfatizam evitar contato com morcegos e produtos não pasteurizados, comum na dieta local.
A propagação transfronteiriça preocupa: Tailândia, Nepal, Taiwan e até aeroportos filipinos implementaram triagens rigorosas, semelhantes às da pandemia de covid-19, com “cartões de alerta sanitário” para viajantes procedentes da Índia. Especialistas como Alexandre Naime Barbosa, da Unesp, destacam a urgência de minimizar interações homem-animal em áreas de alta densidade de morcegos, enquanto a Índia prioriza a produção local de monoclonais para suprir escassez global.
Lições de surtos passados e perspectivas
Episódios anteriores, como os de Kerala em 2018 e 2021, expuseram vulnerabilidades em sistemas de saúde sobrecarregados, com transmissão nosocomial acelerando óbitos. Na Índia, onde Bengala Ocidental e Kerala são zonas endêmicas, o surto atual reforça a necessidade de vigilância genômica e investimentos em vacinas candidatas, testadas em fases iniciais.
Para o mundo, o Nipah simboliza o risco de patógenos emergentes em interfaces ecológicas alteradas por desmatamento e urbanização, demandando abordagens One Health que integrem saúde humana, animal e ambiental. Autoridades indianas buscam acalmar a população, mas o episódio serve de lembrete inescapável: em um planeta interconectado, um surto localizado pode evoluir para ameaça global se não contido com presteza e rigor.
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