Marcelo Henrique de Carvalho
O encontro realizado na Casa Branca em 14 de outubro de 2025 entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da Argentina, Javier Milei, representou um marco na redefinição das relações políticas e econômicas entre os dois países e, simbolicamente, para toda a América do Sul. O momento foi marcado pelo anúncio de um pacote de apoio econômico sem precedentes ao governo argentino, que enfrenta desafios financeiros e políticos severos desde sua posse. Trump posicionou o apoio não apenas como um gesto da política externa americana, mas como o início de uma nova fase para a estabilidade da região, chegando a declarar que aquele era “o começo do fim da crise sul-americana”. Essa afirmação remete à percepção, por parte da Casa Branca e de seus aliados, de que a Argentina, sob o comando de Milei, seria a chave para a transformação do panorama sul-americano, especialmente no que toca à aliança entre mercados livres e valores conservadores.
O pacote financeiro, avaliado em cerca de 20 bilhões de dólares, representa o maior suporte que os Estados Unidos concederam à Argentina nos últimos vinte anos, e é estruturado por meio de um acordo de swap cambial entre o Tesouro americano e o Banco Central argentino. Esse acordo visa, sobretudo, conter a desvalorização do peso e reverter a decadência econômica que ameaça aprofundar a crise social no país vizinho. A Argentina, que tem enfrentado déficit fiscal crescente, inflação alta e falta de reservas internacionais, vê nesse aporte uma oportunidade para estabilizar sua moeda e fortalecer setores estratégicos em meio a pressões internas e à influência de blocos econômicos rivais, especialmente a China. No entanto, o apoio financeiro americano não é isento de condicionantes. Trump afirmou explicitamente que a continuidade desse suporte está atrelada ao sucesso eleitoral de Milei nas eleições legislativas do final do mês, deixando claro que a aliança estratégica é restrita a governos alinhados com sua ideologia política.
O encontro foi permeado por expressões públicas de amizade e respeito mútuo entre os dois líderes, com Trump chegando a chamar Milei de “grande presidente” e afirmar ser seu amigo, em uma demonstração de laços pessoais que transcendem o mero cálculo político. Essa aproximação se traduz em um discurso conjunto que defende reformas de liberalização econômica, combate à corrupção e rejeição a políticas socialistas que, segundo eles, teriam arruinado a Argentina em décadas anteriores. A agenda do encontro girou em torno do fortalecimento de valores liberais tradicionais e do recebimento do apoio financeiro como um instrumento para viabilizar essas mudanças em Buenos Aires, o que se reflete na postura firme de Trump sobre a necessidade de que Milei consolidará seu poder no Congresso para manter o trâmite das reformas estruturais.
Além do plano econômico, o encontro teve uma dimensão geopolítica clara, na qual Trump enfatizou a necessidade de a Argentina romper relações comerciais e políticas com a China e outros países considerados adversários estratégicos dos Estados Unidos, como os membros dos BRICS. Trump criticou fortemente a presença chinesa no continente, classificando os investimentos asiáticos como um tipo de “colonização econômica” que prejudica a soberania dos países latino-americanos e ameaça a hegemonia do dólar. O presidente americano também mencionou o Brasil e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante as conversas, destacando um afastamento gradual desses países de influências externas não alinhadas aos interesses americanos e afirmando ter mantido boas relações com o petista, apesar das divergências ideológicas evidentes entre Lula e Milei. Esse panorama evidência a estratégia de Washington de buscar aliados firmes que garantam sua presença e interesses na região em meio a um cenário global de acirrada concorrência entre potências.
Internamente, nos Estados Unidos, o anúncio do pacote de ajuda ocorreu em meio a tensões políticas, como o prolongado shutdown do governo federal, o que gerou críticas sobre a prioridade dada a investimentos externos enquanto partes significativas da administração pública americana permaneciam paralisadas. O governo defendeu a decisão argumentando que a estabilidade econômica da Argentina é fundamental para a segurança e prosperidade regional, o que, em última instância, beneficiaria também os Estados Unidos. Essa visão pragmática argumenta que investir na recuperação da Argentina é uma maneira de conter fluxos migratórios descontrolados, melhorar o ambiente de negócios para companhias americanas na América do Sul e conter a expansão de influências estrangeiras rivais.
Para a Argentina, a aliança com os Estados Unidos representa um movimento decisivo para tentar reverter os efeitos da crise econômica que se agrava desde os governos anteriores, com Milei apostando em reformas radicais que incluem a diminuição do papel do Estado, abertura completa da economia e cortes profundos em políticas sociais. Apesar da promessa de impulsionar a economia, essas reformas têm provocado resistência crescente da sociedade, com protestos e pressões de sindicatos e grupos políticos que veem o projeto como uma ameaça aos direitos trabalhistas e sociais. O encontro em Washington funcionou também para consolidar a narrativa governamental argentina de que o apoio externo é um passo fundamental para a recuperação e que as eleições parlamentares são decisivas para que o país volte a crescer de forma sustentável e alinhada ao modelo liberal defendido por Milei e seus aliados.
Ao final da visita, Miles compartilhou nas redes sociais imagens do encontro com Trump, destacando a cordialidade e reforçando mensagens de união em torno dos valores da liberdade econômica e soberania nacional. O bilhete recebido do presidente americano, que o chama de amigo e grande líder, simboliza não apenas o apoio dos Estados Unidos, mas a construção de uma base política compartilhada para futuras parcerias. Essa aliança coloca a Argentina numa posição de protagonista em um cenário internacional que se pauta pela disputa entre grandes blocos econômicos e ideológicos, com Washington buscando reposicionar sua influência enquanto enfrenta desafios internos e externos.
No contexto sul-americano mais amplo, o encontro e o pacote anunciado têm impacto direto nas relações regionais, podendo reconfigurar alianças e polarizações. A prudência é necessária, visto que o comprometimento político do governo argentino para com os interesses americanos pode gerar atritos com vizinhos e parceiros que buscam maior autonomia ou que mantêm relações distintas com China e Rússia. O que Trump chamou de “começo do fim da crise sul-americana” carrega consigo o simbolismo de um projeto político e econômico original, ambicioso e controverso, que mistura apoio financeiro inédito e uma nova geopolítica de aproximação entre Washington e a América Latina, centrada na defesa do liberalismo e na contenção da influência de potências emergentes.
Em suma, o encontro entre Trump e Milei não apenas representa uma injeção de recursos vitais para uma economia em colapso, mas inaugura uma nova etapa nas relações internacionais da região, marcada pelo condicionamento político do auxílio americano e por uma disputa ideológica que promete influenciar decisivamente os rumos políticos, sociais e econômicos da Argentina e, por extensão, do continente. O olhar atento dos mercados, dos governos vizinhos e da sociedade civil acompanhará atentamente os desdobramentos dessa aliança, que pode significar um divisor de águas na histórica crise sul-americana ou, alternativamente, aprofundar controvérsias e resistências internas que desafiarão a concretização das promessas feitas na Casa Branca.
