O Serviço Nacional de Saúde da Inglaterra, NHS England, anunciou nesta semana o lançamento do primeiro registro genético nacional dedicado a identificar riscos hereditários de câncer, uma iniciativa pioneira que promete revolucionar a prevenção e o tratamento personalizado da doença no país.
Registro pioneiro de 120 genes
Batizado de NHS National Inherited Cancer Predisposition Register, o banco de dados compila informações sobre 120 genes associados a maior propensão a cânceres como mama, próstata, colorretal e outros tumores hereditários. Pacientes diagnosticados com câncer e seus familiares próximos poderão comparar seus perfis genéticos ao registro, permitindo a detecção precoce de mutações como BRCA1, BRCA2 e as ligadas à síndrome de Lynch. Aqueles identificados com risco elevado serão automaticamente inscritos, recebendo convites para rastreamentos regulares, exames preventivos e orientações personalizadas para redução de risco.
O projeto integra o plano decenal do NHS para aprimorar a prevenção oncológica, sucedendo o sucesso do registro de síndrome de Lynch, que já beneficiou milhares com triagens rotineiras. Professor Peter Johnson, diretor clínico nacional para câncer do NHS England, enfatizou que essa é a primeira vez em que um sistema de saúde consolida todos os dados genéticos de risco em um só lugar, facilitando o contato proativo com pacientes para oferecer testes e tratamentos inovadores.
Estratégia de prevenção personalizada
Anualmente, dezenas de milhares de pacientes ingleses já realizam testes genéticos pelo NHS, mas o novo registro centraliza essas informações, acelerando o acesso a intervenções precoces. Indivíduos com predisposição hereditária ganharão monitoramento vitalício, incluindo mamografias anuais para mulheres de alto risco de câncer de mama e exames de próstata para homens vulneráveis. Além disso, o banco permitirá testar respostas a terapias específicas, como inibidores de PARP para portadores de mutações BRCA, promovendo uma medicina de precisão que adapta o cuidado ao perfil genômico individual.
Wes Streeting, secretário de Saúde do Reino Unido, descreveu a ferramenta como transformadora e salvadora de vidas, capaz de modernizar o NHS para o século XXI ao converter dados genéticos em ações preventivas concretas. Ele destacou que, embora não possamos alterar genes herdados, podemos agir sobre as informações que eles fornecem, reduzindo a incidência de uma doença que afeta um em cada dois ingleses ao longo da vida.
Expansão para genômica populacional
O lançamento se alinha a iniciativas mais amplas do NHS, como o mapeamento de DNA de todos os recém-nascidos na Inglaterra nos próximos dez anos, para avaliar riscos de centenas de doenças genéticas, incluindo câncer. Financiamento adicional apoiará a Genomics England na construção de um dos maiores bancos de dados de pesquisa genômica do mundo, integrando sequenciamento genômico completo para pacientes oncológicos. Essa abordagem populacional visa identificar variantes raras e promover pesquisas que acelerem diagnósticos e terapias inovadoras.
Claire Rowney, CEO da Breast Cancer Now, elogiou o potencial para transformar vidas, especialmente de mulheres com histórico familiar, garantindo acesso equitativo a rastreios frequentes e tratamentos redutores de risco. A entidade cobra que o banco seja acessível a todos os clínicos e projetado para cuidados integrados, evitando disparidades no atendimento.
Desafios éticos e de privacidade
Embora promissor, o registro levanta questões sobre privacidade genética e equidade de acesso, com garantias de confidencialidade rigorosa e segurança de dados sob regulamentações do GDPR. Críticos apontam o risco de estigmatização para portadores de mutações e a necessidade de suporte psicológico para quem recebe diagnósticos de risco hereditário. O NHS assegura que o foco permanece na ação preventiva, com aconselhamento genético obrigatório para inscritos.
Especialistas em genômica oncológica veem no banco um marco na transição para a era da prevenção preditiva, onde o genoma individual guia intervenções antes que a doença se manifeste. Para a Inglaterra, pioneira em genômica pública desde o projeto 100.000 Genomas em 2015, essa ferramenta reforça o compromisso com um sistema de saúde preditivo e inclusivo. Milhares de famílias poderão, assim, converter vulnerabilidades genéticas em oportunidades de longevidade saudável, redefinindo o combate ao câncer como uma batalha ganha na prevenção.
