A prévia da inflação de 2026 começou em ritmo contido. O IPCA‑15, índice calculado pelo IBGE que antecipa o comportamento do IPCA cheio, avançou 0,20% em janeiro, resultado que representa a segunda menor alta para o mês desde o início do Plano Real, ficando atrás apenas dos 0,11% registrados em janeiro de 2025. Em termos anuais, a taxa acumulada em doze meses subiu ligeiramente para 4,50%, ainda encostada no teto do intervalo de tolerância da meta de inflação perseguida pelo Banco Central, de 3% ao ano com margem de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Na comparação com dezembro, quando o indicador havia variado 0,25%, o movimento traduz uma desaceleração moderada, reforçando a percepção de perda de fôlego dos preços na virada do ano. O resultado também frustrou, ainda que marginalmente, as expectativas do mercado financeiro: a mediana das projeções compiladas por consultorias e pela agência Bloomberg apontava alta de 0,22% para o período, com estimativas variando de 0,15% a 0,42%. A surpresa, portanto, foi positiva, ainda que a taxa em doze meses permaneça em patamar que exige atenção da política monetária.
Entre os nove grupos de produtos e serviços pesquisados, dois registraram deflação em janeiro: Habitação, com queda de 0,26%, e Transportes, com recuo de 0,13%. Todos os demais grupos apresentaram variações positivas, situadas entre o avanço de 0,05% em Educação e a alta de 0,81% em Saúde e cuidados pessoais, este último responsável pelo principal foco de pressão inflacionária no mês.
Habitação foi decisivamente influenciada pela redução de 2,91% na energia elétrica residencial, movimento que exerceu o maior impacto negativo individual no índice, retirando cerca de 0,12 ponto percentual do IPCA‑15 de janeiro. A queda decorre sobretudo da substituição da bandeira tarifária amarela pela verde, o que eliminou a cobrança de adicional nas contas de luz em diversas regiões do país. Em síntese, a inflação menor começou, literalmente, pelo interruptor da casa.
No grupo Transportes, a deflação de 0,13% teve como protagonistas as passagens aéreas, que recuaram expressivos 8,92%, e o ônibus urbano, com queda de 2,79%. No caso do transporte coletivo, pesou a adoção de tarifa zero em domingos e feriados em Belo Horizonte, política que provocou retração de 18,26% nos preços locais e ajudou a amortecer a inflação do segmento em âmbito nacional. A gasolina, item sempre observado de perto por consumidores e analistas, teve comportamento heterogêneo entre regiões, mas não foi o grande vilão da vez.
Se, de um lado, energia e transportes abriram espaço para a desaceleração, de outro, o grupo Saúde e cuidados pessoais funcionou como contrapeso. A alta de 0,81% respondeu por 0,11 ponto percentual do índice geral, sendo, portanto, o maior impacto individual do mês. Dentro desse conjunto, destacaram‑se os artigos de higiene pessoal, que avançaram 1,38% após terem recuado 0,78% em dezembro, e os planos de saúde, com aumento de 0,49%. É precisamente nesse segmento, diretamente ligado ao orçamento das famílias, que se concentram algumas das preocupações dos economistas, uma vez que itens de consumo recorrente tendem a influenciar as expectativas de inflação.
Alimentação e bebidas, por sua vez, mostraram comportamento misto. Produtos importantes na cesta básica, como leite longa vida, arroz e café moído, apresentaram recuos de 7,93%, 2,02% e 1,22%, respectivamente, contribuindo para aliviar o bolso do consumidor na compra do mês. Já a alimentação fora do domicílio subiu 0,56%, refletindo, em parte, a recomposição de margens em bares e restaurantes após o período de festas. Entre as regiões pesquisadas, Recife registrou a maior variação, de 0,64%, puxada pela combinação de alta da gasolina (2,57%) e de itens de higiene pessoal (1,23%). São Paulo, em contraste, teve o menor resultado, com ligeira deflação de 0,04%, favorecida pela forte queda do leite longa vida e da energia elétrica residencial.
Do ponto de vista de política econômica, o comportamento do IPCA‑15 de janeiro alimenta uma leitura ambivalente. Por um lado, a segunda menor alta para o mês em toda a história do Plano Real – superando apenas o desempenho de 2025 – sugere que as pressões inflacionárias estão, ao menos por ora, sob alguma forma de controle. Por outro, o acumulado em doze meses encostado no teto da meta recomenda cautela ao Comitê de Política Monetária do Banco Central, que se reúne em breve para decidir os próximos passos da trajetória da taxa Selic.
O boletim Focus mais recente, divulgado pelo próprio Banco Central, projeta inflação de 4% ao final de 2026, abaixo dos 4,26% observados em 2025, o que denota expectativa de desaceleração ao longo do ano. No entanto, a composição do índice – com serviços e itens ligados a saúde ainda em patamar elevado – pode levar o Copom a adotar postura prudente, evitando cortes mais agressivos de juros até que o quadro mostre queda mais disseminada entre os componentes mais inerciais.
Em termos práticos, o IPCA‑15 de janeiro funciona como um retrato em close: baixa iluminação geral, graças às quedas em energia e transportes, mas com alguns pontos de brilho excessivo em saúde, higiene e alimentação fora de casa. Cabe agora observar se esse quadro se repetirá no IPCA cheio, a ser divulgado em 10 de fevereiro, e, sobretudo, se se converterá em tendência ao longo de 2026. Para as famílias, por enquanto, a mensagem é de alívio moderado: a inflação desacelera, mas ainda permanece suficientemente presente para exigir atenção na organização do orçamento.
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