Desperdício na educação paulista revela falhas crônicas de gestão e logística na distribuição e no descarte de materiais didáticos em escolas da rede estadual, com pilhas de livros novos ou pouco usados sendo destinados ao lixo ou à reciclagem irregular. Episódios recentes, como o flagrante de caixas lacradas da Editora FTD jogadas em lixeiras de comunidades e o descarte de mais de mil exemplares em depósitos de Caçapava, expõem um padrão de descaso que custa caro aos cofres públicos e frustra famílias já sobrecarregadas com despesas escolares.
Livros novos no lixo: o caso da Editora FTD
Dezenas de caixas com livros didáticos do ensino médio, ainda lacrados e em perfeitas condições, foram descobertos em uma lixeira na comunidade Terra Santa, em São Paulo. Pertencentes à Editora FTD Educação, os volumes destinavam-se à rede pública, mas acabaram descartados sem qualquer tentativa de redistribuição ou doação. A editora manifestou-se publicamente, repudiando o ato e cobrando explicações das autoridades educacionais responsáveis pela cadeia de suprimentos.
Esse episódio não é isolado. Em 2025, na cidade de Caçapava, a Polícia Civil interveio para impedir a trituração de cerca de 1.200 livros novos do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), encontrados em um depósito de reciclagem às margens da rodovia João Amaral Gurgel. A denúncia anônima revelou que os materiais, que deveriam ser encaminhados a municípios carentes, foram solicitados para descarte pela prefeitura local, sem autorização federal ou estadual, configurando possível crime ambiental e desvio de finalidade.
Caso da EE Maria Zilda Gamba Natel
Conforme publicado no Portal SP Notícias, pilhas de material escolar foram despejadas em caçamba, na frente da Escola Estadual Maria Zilda Gamba Natel. Atos como esse demontram falta de zelo e profissionalismo na gestão do patrimônio público, especialmente no ambiente estudantil, tão carente de recursos e investimentos.
Apostilas com erros e o ciclo vicioso
Na rede estadual paulista, apostilas didáticas do Ensino Fundamental vêm sendo alvo de críticas recorrentes por erros primários, identificados inclusive por alunos. A Secretaria de Estado da Educação (Seduc-SP) admite inconformidades e promete substituição no ano seguinte, mas opta por erratas impressas nas escolas, evitando o custo logístico de recolhimento em massa. Especialistas como Claudia Costin, referência em políticas educacionais, apontam que tais falhas são comuns em materiais adotados em larga escala, mas o descarte seletivo agrava o problema quando o conteúdo é considerado desatualizado.[
Historicamente, a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), vinculada à Seduc, já picou toneladas de apostilas estocadas em galpões, transformando-as em papel reciclado sem chance de reutilização. Em 2016, alunos da Escola Estadual Doutor Júlio Prestes de Albuquerque, em Sorocaba, filmaram livros sendo arremessados do segundo andar, formando uma montanha no pátio, o que gerou investigação da Diretoria de Ensino regional.
Legislação frouxa e ausência de controle
Portarias como a nº 166/2015 da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo regulam o desfazimento de materiais irrecuperáveis, desatualizados ou inservíveis, priorizando doações a cooperativas de reciclagem. No entanto, na esfera estadual, a falta de fiscalização rigorosa permite práticas informais, como o envio direto para trituradoras, contrariando recomendações do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). O MEC, em 2020, chegou a cogitar descartar 2,9 milhões de livros não utilizados do PNLD, ecoando dilemas semelhantes nos estados.
Municípios paulistas agravam o quadro ao trocar livros federais gratuitos por sistemas privados de apostilas, consumindo até 6 por cento do orçamento educacional em serviços que limitam a autonomia docente e geram duplicidade de materiais pagos duas vezes pelo erário. Essa opção, adotada por 182 cidades em 2015, compromete investimentos em infraestrutura e vagas na educação infantil.
Impactos sociais e ambientais
O desperdício não se resume a prejuízos financeiros: ele simboliza o desprezo por recursos essenciais em um sistema educacional que luta contra desigualdades. Em meio a listas escolares inflacionadas, famílias veem impostos desperdiçados enquanto escolas jogam fora o que poderia ser doado ou reciclado de forma sustentável. A gestão escolar desorganizada consome tempo, material e dinheiro, com funcionários remunerados para tarefas periféricas em vez de pedagógicas.
Especialistas defendem critérios claros de desfazimento, com comissões de análise em escolas e diretorias regionais, e ações de sustentabilidade como reciclagem controlada. O FNDE orienta redes a legislar sobre o tema, mas na prática paulista, o ciclo persiste: compra em massa, armazenamento precário, descarte opaco. Uma mudança real exigiria transparência, participação de conselhos escolares e punição a irregularidades, transformando o descarte em oportunidade de equidade educacional.
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