Em 2024, o Brasil voltou a conviver com um patamar de mortes no trânsito que muitos especialistas julgavam incompatível com a maturidade institucional do país. Foram 37.150 óbitos, o maior número em oito anos, segundo levantamento da Vital Strategies a partir de dados do Ministério da Saúde. Em um dado que reposiciona o mapa do risco, o Nordeste liderou em mortes no trânsito pela primeira vez desde 2010, com 11.894 registros, superando o Sudeste, que teve 10.995.
Os números ajudam a iluminar duas realidades ao mesmo tempo. A primeira é que a tragédia se distribui de forma desigual: o Centro-Oeste concentrou a maior taxa de mortalidade, com 24,5 mortes por 100 mil habitantes, enquanto o Nordeste apareceu na sequência com 20,8 e o Sudeste registrou a menor taxa, 12,4. A segunda é que, mesmo quando o Sudeste tem mais gente, mais carros e mais densidade urbana, o Nordeste conseguiu, em volume absoluto, alcançar e ultrapassar a região historicamente líder nesse ranking, o que indica uma combinação de vulnerabilidades que vai além do acaso estatístico.
Parte desse contexto está na própria frota e na infraestrutura. Em dezembro de 2024, o Sudeste tinha cerca de 59 milhões de veículos cadastrados, mais que o dobro do Nordeste, com 22,3 milhões, de acordo com números citados a partir da Secretaria Nacional de Trânsito. Ainda assim, o Nordeste concentrava 6 das 12 rodovias classificadas como péssimas na pesquisa de 2024 da Confederação Nacional do Transporte, um indicador que costuma dialogar com risco aumentado de sinistros graves, especialmente em trechos sem manutenção e com sinalização deficiente.
No cotidiano, porém, a estatística ganha nome e sobrenome, e costuma começar com uma ligação fora de hora. Em muitos municípios do interior nordestino, o deslocamento de moto não é escolha, é o modo possível de ir ao trabalho, levar um filho à escola, chegar ao posto de saúde, vencer distâncias onde o transporte público é intermitente e o carro é um luxo. Esse detalhe social, aparentemente prosaico, aparece com força quando se olha o perfil das vítimas.
No levantamento repercutido por veículos nacionais e regionais, as mortes de motociclistas despontam como combustível central do avanço no Nordeste. Em 2024, a região registrou 6.116 mortes em acidentes envolvendo motos, o equivalente a 51,4% do total de óbitos locais, e um número cerca de 60% maior que o do Sudeste, que contabilizou 3.820 nesse recorte. Em termos de taxa, Norte e Nordeste chegaram a patamares semelhantes, de 21 e 20,8 mortes por 100 mil habitantes, enquanto o Sudeste permaneceu bem abaixo, com 12,4.
Há um componente de política pública que insiste em se repetir como pano de fundo. Em nota citada em reportagem, o Ministério dos Transportes afirmou adotar uma abordagem “ampla e preventiva” para enfrentar a violência no trânsito, com ações que vão da formação de condutores à fiscalização e melhoria da infraestrutura viária. A pasta também mencionou o programa CNH do Brasil, com a intenção de baratear e simplificar o processo de habilitação, em um país que ainda convive com mais de 20 milhões de pessoas dirigindo sem Carteira Nacional de Habilitação.
Na mesma linha, o governo citou a Medida Provisória nº 1.327/2025, conhecida como MP do Bom Condutor, que prevê incentivo ao comportamento responsável e menciona renovação automática da CNH para motoristas sem infrações nos últimos 12 meses. O discurso oficial, ao reconhecer um contingente tão alto de condutores fora da legalidade, sugere que a tragédia não se resolve apenas com campanhas pontuais, mas com uma engrenagem contínua de regularização, fiscalização e cultura de segurança.
O desafio é que a resposta precisa ser calibrada para quem mais morre. O próprio Ministério dos Transportes destacou ações voltadas a motociclistas, incluindo a criação da Semana Nacional de Prevenção a Sinistros com Motociclistas, instituída pela Lei nº 15.006/2024, e a elaboração de um Programa Nacional de Segurança de Motociclistas, com base no Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito. Esse plano, o Pnatrans, traz a meta de reduzir em, no mínimo, 50% o índice nacional de mortos no trânsito por grupo de habitantes até 2030, tomando como referência os dados de 2020.
No Nordeste, onde a motocicleta é parte do tecido econômico e do desenho urbano de milhares de cidades, a pergunta que fica não é se haverá novas ações, mas se elas chegarão antes da próxima sirene. Os dados de 2024, ao colocar a região no topo do ranking nacional em mortes no trânsito, funcionam como alerta e como espelho: mostram que o país não está só diante de um problema de direção imprudente, mas de um sistema inteiro que precisa proteger melhor quem se desloca para viver.
