Quarenta e quatro anos depois de sua partida precoce, Elis Regina permanece como uma presença insubstituível na memória afetiva do Brasil, espécie de consciência musical do país em tempos de espanto, esperança e medo. No aniversário de sua morte, a impressão que fica é a de que sua voz ainda atravessa gerações, como se o tempo fosse apenas um intervalo entre um agudo preciso e um sussurro rasgado em cena.

A menina de Porto Alegre que incendiou a canção

Nascida em 17 de março de 1945, em Porto Alegre, Elis Regina Carvalho Costa começou a cantar ainda criança em programas de rádio, num Brasil que descobria a televisão e tateava um novo lugar para a música popular. Em 1961, aos 16 anos, gravou o primeiro LP, “Viva a Brotolândia”, ensaiando passos iniciais que ainda não revelavam por completo o furacão cênico em que se transformaria poucos anos depois.

O salto definitivo viria com a televisão já consolidada como palco nacional, em especial a partir de 1965, quando sua interpretação de “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, no Festival da Excelsior, redefiniu o patamar de entrega dramática na canção. Ali se inaugurava, aos olhos do país, não apenas uma cantora tecnicamente impecável, mas uma intérprete que fazia da performance uma espécie de teatro concentrado em três minutos.

A arquiteta da moderna MPB

Elis foi um dos pilares da consolidação da música popular brasileira como campo sofisticado, capaz de dialogar com a canção de protesto, a bossa nova, o samba urbano e a canção de câmara sem perder organicidade. Sua voz, de extensão ampla, afinação implacável e acento rítmico quase percussivo, transformava cada arranjo em um organismo vivo, em que respirações, silêncios e ataques eram coreografados com rigor quase obsessivo.

Em estúdio, associou-se a músicos e arranjadores que pensavam a canção como arquitetura minuciosa, caso emblemático do encontro com Antonio Carlos Jobim no antológico “Elis & Tom”, gravado em Los Angeles em 1974, hoje referência incontornável da discografia mundial. Ao mesmo tempo, emprestou o prestígio de seu nome para revelar compositores então emergentes, como Milton Nascimento, Belchior, João Bosco e Aldir Blanc, entre outros, ajudando a moldar o cânone da MPB dos anos 1970.

Voz política em tempos de chumbo

A trajetória de Elis se confunde com a história da ditadura civil-militar, período em que a canção brasileira se converteu em espaço privilegiado de metáforas e alegorias políticas. Crítica ao regime, em entrevista na Holanda chegou a afirmar que o Brasil estava sendo governado por “gente louca”, gesto que a colocou sob suspeita e pressão num contexto de censura e vigilância.

O episódio em que cantou o Hino Nacional em um evento militar, em 1972, foi lido por setores da esquerda como aproximação com o regime, mas estudos posteriores e depoimentos de contemporâneos apontam para o temor de represálias e a coerção exercida sobre artistas naquele contexto. Em resposta simbólica, sua voz eternizou “O bêbado e a equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, que se transformou em hino informal da anistia, condensando em metáforas a dor dos desaparecidos e o desejo de redemocratização.

A morte precoce e o mito

Na manhã de 19 de janeiro de 1982, aos 36 anos, Elis Regina morreu em São Paulo em decorrência de uma parada cardíaca. O velório, realizado no Teatro Bandeirantes, em São Paulo, foi acompanhado por uma multidão estimada em quinze mil pessoas, que seguiram o cortejo até o Cemitério do Morumbi, em uma manifestação coletiva de luto raramente vista em torno de uma artista.

Sua morte interrompeu uma carreira de pouco mais de duas décadas, porém de densidade quase assombrosa, deixando um legado fonográfico que atravessa gêneros, estéticas e gerações. A figura pública, muitas vezes descrita por colegas como temperamental e intensa, consolidou-se no imaginário como sinônimo de entrega absoluta, da artista que não admitia meios-tons na arte nem na vida.

Herança, memória e permanência

Quarenta e três anos depois, a discografia de Elis permanece em catálogo, sendo reeditada, remasterizada e redescoberta por novas audiências que encontram em seus discos uma espécie de cartografia emocional do Brasil urbano da segunda metade do século XX. Estudos acadêmicos, biografias e ensaios vêm se debruçando sobre sua trajetória para compreender como aquela voz deu forma às tensões entre mercado, política, mídia e criação em um período de intensa transformação social.

Sua herança também se projeta na própria família: os filhos João Marcelo Bôscoli, Pedro Mariano e Maria Rita seguiram caminhos na música, ainda que sob a sombra luminosa do sobrenome que se converteu em mito. No entanto, mais do que o parentesco biológico, é a linhagem simbólica que faz de Elis uma espécie de matriz para várias gerações de intérpretes, que nela reconhecem um paradigma de rigor artístico e coragem expressiva.

No aniversário de sua morte, lembrar Elis Regina é revisitar, ao mesmo tempo, uma história de virtuosismo técnico e vulnerabilidade humana, de engajamento e contradição, de êxtase em cena e fraturas íntimas. Entre gravações impecáveis, entrevistas cortantes e silêncios que a história já não pode preencher, permanece a sensação de que, em cada faixa, ela ainda pergunta ao país se estamos à altura da emoção que sua voz exige.

HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

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