Agentes federais voltaram a usar munição real durante uma operação relacionada à repressão à imigração em Minneapolis, no estado de Minnesota, e feriram mais uma pessoa a tiros, segundo informação divulgada pelo governo estadual neste sábado. O episódio, descrito por autoridades locais como o segundo caso recente com disparos efetuados por agentes federais na região metropolitana, reabriu tensões entre a administração estadual, lideranças municipais e o governo federal sobre os limites da atuação armada em ações de detenção e remoção.

De acordo com a versão apresentada por integrantes do Executivo estadual, a ocorrência foi registrada durante uma abordagem em via pública no contexto de uma operação que buscava localizar um imigrante com ordem de deportação. A identidade da pessoa baleada não havia sido oficialmente confirmada até o início da tarde, e também não estava claro se ela era o alvo original da ação, um acompanhante ou um transeunte. Autoridades de segurança pública do estado afirmaram que a vítima foi encaminhada a um hospital da cidade e que seu estado de saúde, embora grave, era considerado estável no último boletim repassado ao governo.

A Polícia de Minneapolis informou que prestou apoio posterior ao incidente, acionada para isolar a área e organizar o fluxo de trânsito, mas que os agentes envolvidos diretamente na abordagem pertenciam a uma força federal. Em situações desse tipo, a cadeia de comando e a divulgação de detalhes costumam ficar sob responsabilidade do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS, na sigla em inglês) e de seus órgãos, como o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Procurados por e-mail e telefone por veículos locais, porta-vozes federais não haviam se manifestado publicamente até a conclusão desta reportagem, o que impediu a verificação independente de elementos centrais, como a justificativa para o uso de força letal e a alegação de ameaça imediata.

O governador do estado, em declaração a jornalistas durante agenda pública, disse que pediu informações formais ao governo federal e cobrou transparência sobre regras de engajamento, protocolos de identificação e a existência de câmeras corporais. Segundo ele, o padrão que começa a se desenhar é “inaceitável” quando a atuação federal resulta em tiros em área urbana, com risco a moradores não envolvidos. O governo estadual também sinalizou que pretende solicitar ao Departamento de Justiça (DOJ) a abertura de uma apuração independente, sobretudo se houver indícios de violação de direitos civis.

Moradores do entorno relataram ter ouvido uma sequência curta de disparos e, em seguida, gritos e sirenes. Em vídeos gravados por celulares e publicados em redes sociais, é possível ver viaturas e pessoas reunidas a uma distância considerável, sem que as imagens, por si só, permitam identificar com precisão quem atirou ou em que circunstâncias. Especialistas em segurança pública ouvidos por rádios locais lembram que registros desse tipo, quando não acompanhados de perícia, podem gerar interpretações apressadas. Ainda assim, ressaltam que o contexto de operações migratórias armadas em bairros residenciais aumenta a chance de erro tático e de escalada, especialmente quando há pouca coordenação com autoridades municipais.

A prefeitura de Minneapolis, por sua vez, tem insistido em que políticas locais de cooperação com imigração seguem parâmetros legais: a cidade costuma concentrar sua atuação em segurança comunitária e não em atividades de fiscalização migratória. Organizações de defesa de imigrantes, que acompanham detenções e audiências, afirmam que o atual ciclo de operações federais tem produzido medo generalizado, com famílias evitando escolas, igrejas e serviços básicos. Para essas entidades, o uso de força letal em ações administrativas, como o cumprimento de ordens de deportação, representa uma mudança qualitativa preocupante, porque aproxima uma política pública de um cenário de guerra urbana.

Do lado federal, defensores de operações mais duras costumam argumentar que agentes podem enfrentar resistência armada, tentativas de fuga em veículos e reações imprevisíveis durante abordagens. Ex-procuradores federais lembram que o padrão de investigação, quando há tiro disparado por agente, envolve a preservação do local, a coleta de cápsulas, a análise balística, exames toxicológicos e o cruzamento de relatos com imagens de câmeras, inclusive de estabelecimentos privados. Também é comum que o órgão investigado anuncie apuração interna paralela, o que não substitui uma investigação externa.

O episódio ocorre em meio a um debate nacional acalorado sobre imigração, com pressões políticas por respostas rápidas, metas de prisões e deportações, e críticas de governadores e prefeitos que pedem foco em casos de alta periculosidade. Minnesota, historicamente, abriga comunidades de imigrantes e refugiados relevantes, e Minneapolis já foi palco de mobilizações de direitos civis que ampliaram o escrutínio público sobre ações policiais e uso de força. Esse histórico torna qualquer incidente com tiro, sobretudo envolvendo autoridades fora do comando local, um catalisador de protestos e disputas institucionais.

Até o fechamento desta reportagem, o governo estadual afirmava aguardar a identificação formal da vítima, a confirmação do órgão federal responsável pela equipe e a definição de qual instância conduzirá a investigação principal. O governador reiterou que, independentemente do status migratório da pessoa ferida, o estado cobrará explicações e medidas para evitar novos disparos em ações de repressão à imigração em áreas densamente povoadas.

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