São Paulo completa 472 anos como metrópole incansável e multifacetada. Nesta data simbólica, marcada pela fundação do colégio dos jesuítas em 1554, a capital paulista celebra não só sua história de imigração, trabalho e progresso, mas também seu papel como musa inspiradora de 231 novelas brasileiras ao longo de seis décadas de teledramaturgia. De Beto Rockfeller a produções recentes, a cidade dos arranha‑céus e contrastes sociais serviu de pano de fundo para tramas que espelharam sua alma agitada e contraditória.

A trajetória começa nos anos 1960, quando a televisão brasileira ainda engatinhava. Em 1968, Beto Rockfeller, escrita por Dias Gomes para a TV Globo, revolucionou o gênero ao retratar São Paulo como um caldeirão de ascensões e quedas sociais, com o taxista impostor interpretado por Tarcísio Meira circulando pelas ruas da Augusta e Teodoro Sampaio. A novela capturou a efervescência da metrópole em plena ditadura militar, misturando crítica social a um ritmo vertiginoso que antecipou o formato das tramas urbanas modernas.

A partir dos anos 1980, São Paulo consolida‑se como locação recorrente, especialmente nas novelas de Silvio de Abreu, autor que enxerga na Paulistânia uma fonte inesgotável de personagens e conflitos. Sassaricando, de 1987, trouxe o glamour dos Jardins e as intrigas da alta sociedade, com Regina Duarte e Lima Duarte em papéis memoráveis. Rainha da Sucata, em 1990, ampliou o escopo para periferias e avenidas comerciais, enquanto Belíssima, em 2005, transformou o bairro da Liberdade e o Brás em cenários de desfiles e vinganças familiares, com Gloria Pires à frente.

A lista de produções é extensa e diversa, abrangendo emissoras como Globo, SBT, Record e Band. A categoria de telenovelas ambientadas na cidade, catalogada em fontes especializadas, já registra mais de 118 títulos só na Wikipédia, mas o número total chega a 231 quando se incluem tramas parciais, como cenas externas ou núcleos paulistanos em histórias maiores. Destaques incluem Torre de Babel, de Silvio de Abreu em 1998, que ambientou explosões e dramas no centro fervilhante; Ti Ti Ti, remake de 2010 com Alexandre Borges e Murilo Benício disputando o estrelato da moda nos ateliês da Vila Madalena; e Amor à Vida, de Walcyr Carrasco em 2013, que explorou a diversidade do Hospital Central e os segredos da família Khoury.

Novelas como Carrossel, do SBT em 2012, trouxeram o cotidiano escolar dos subúrbios, enquanto Caminhos do Coração, da Record, usou o Viaduto Santa Ifigênia e o Parque Ibirapuera para cenas de mutantes e intrigas genéticas. Mais recentemente, Sangue Bom, de 2013, satirizou o culto à aparência e o consumismo nas ruas da Faria Lima, e Haja Coração, remake de Sassaricando em 2016, revisitou os Jardins com uma pitada contemporânea.

Por que São Paulo exerce tal fascínio sobre autores e produtores? A resposta reside em sua essência plural e dinâmica. Diferente do Rio de Janeiro, com suas praias e morros idealizados, a capital paulista oferece uma tapeçaria urbana densa, de avenidas pulsantes como a Paulista e o Anhangabaú aos becos da Liberdade e do Brás, passando pelos condomínios de Moema e as periferias vibrantes. É o lugar onde se cruzam imigrantes italianos, japoneses, libaneses e nordestinos, gerando tramas de ascensão social, traições familiares e dilemas éticos que ecoam a realidade de milhões.

Estudos sobre representação midiática destacam que, desde os primórdios da teledramaturgia, São Paulo rivaliza com o Rio como epicentro narrativo, especialmente para histórias de poder econômico e mobilidade social. Em 2009, por exemplo, a cidade foi simultaneamente cenário de cinco novelas principais, de Sete Pecados a Dance Dance Dance. Dados recentes reforçam essa predominância: em quase uma década, São Paulo apareceu em milhares de produções audiovisuais, consolidando‑se como o maior polo de filmagens do Brasil.

Essa presença massiva na ficção televisiva não é mero acidente. Ela reflete o peso demográfico e cultural da metrópole, que concentra 12 milhões de habitantes e dita tendências nacionais em moda, gastronomia e negócios. Autores como Abreu confessam que a mistura de raças e culturas paulistanas inspira suas criações mais afiadas, capazes de criticar vícios sociais sem cair no didatismo. Para o público, ver a própria cidade na telinha cria identificação imediata, transformando novelas em espelhos coletivos.

Nos 472 anos de São Paulo, as 231 novelas funcionam como um vasto arquivo ficcional da paulistanidade. Elas documentam transformações urbanas, desde os anos de chumbo até a era digital, e humanizam estatísticas com dramas pessoais que transcendem fronteiras regionais. Em um aniversário marcado por celebrações como a de 25 de janeiro de 2026, com programação que mescla tradição e inovação, a teledramaturgia reafirma o óbvio: São Paulo não é só cenário, é protagonista eterna das narrativas brasileiras.

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